quarta-feira, 31 de março de 2010

Trecho de O Divã


Sempre desprezei as coisas mornas,

as coisas que não provocam ódio nem paixão,

as coisas definidas como mais ou menos,

um filme mais ou menos,

um livro mais ou menos.

Tudo perda de tempo.

Viver tem que ser perturbador,

é preciso que nossos anjos e demônios sejam dispertados,

e com ele sua raiva, seu orgulho,seu asco, sua adoração ou seu desprezo.

O que não faz você mover um músculo,

o que não faz você estremecer,

suar, desatinar,

não merece fazer parte de sua biografia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Chico Buarque


Sonhar

Mais um sonhor impossível

Lutar

Quando é fácil ceder

Vencer

O inimigo invencível

Negar

Quando a regra é vender

Sofrer

A tortura impagável

Romper

A incabível prisão

Voar

Num limite improvável

Tocar

O inacessível chão

É minha lei, é minha questão

Virar esse mundo

Cavar esse chão

Não me importa saber

Se é terrível demais

Quantas guerras terei que vencer

por um pouco de paz

E amanhã, se esse chão que eu beijei

For meu leito e perdão

Vou saber que valeu delirar

E morrer de paixão

E assim, seja lá como for

Vai ter fim a infinita aflição

E o mundo vai ver uma flor

Brotar do impossível chão

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Drummond


As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.


Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.


Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.


Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Alberto Caeiro


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Mudo,mas não mudo muito.

A cor das flores não é a mesma ao sol

De que quando uma nuvem passa

Ou quando entra a noite

E as flores são cor da sombra.


Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

Por isso quando pareço não concordar comigo,

Repare bem para mim:

Se estava virado para direita

Voltei-me agora para esquerda,

Mas sou sempre eu,assente sobre os mesmos pés-

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra

E aos meus olhos e ouvidos atentos

E à minha clara simplicidade de alma...


Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos,

e não tivesse amor,

seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia,

e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência,

e ainda que tivesse toda a fé,

de maneira tal que transportasse os montes,

e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres,

e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,

e não tivesse amor,nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno;

o amor não é invejoso;

o amor não trata com leviandade,não se ensoberbece.

Não se porta com indecência,não busca os seus interesses,não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas;havendo línguas, cessarão;havendo ciência, desaparecerá;

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

Mas, quando vier o que é perfeito,

então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face;

agora conheço em parte,mas então conhecerei como também sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

(Coríntios 13)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Gregório de Matos

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol,por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Talvez umas das musicas mais lindas...




Você foi o maior dos meus casos

De todos os abraços

O que eu nunca esqueci

Você foi, dos amores que eu tive

O mais complicado e o mais simples pra mim


Você foi o melhor dos meus erros

A mais estranha história

Que alguém já escreveu

E é por essas e outras

Que a minha saudade faz lembrar

De tudo outra vez....


Você foi

A mentira sincera

Brincadeira mais séria que me aconteceu

Você foi

O caso mais antigo

O amor mais amigo que me apareceu


Das lembranças que eu trago na vida

Você é a saudade que eu gosto de ter

Só assim sinto você bem perto de mim

Outra vez


Esqueci de tentar te esquecer

Resolvi te querer por querer

Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade

Sem nada perder


Você foi

Toda a felicidade

Você foi a maldade que só me fez bem

Você foi

O melhor dos meus planos

E o maior dos enganos que eu pude fazer


Das lembranças que eu trago na vida

Você é a saudade que eu gosto de ter

Só assim sinto você bem perto de mim

Outra vez